A árvore-mãe
O céu está deserto
Nenhuma nuvem para conversar
Azul sozinho
Ana Claudia Quintana Arantes
Estou sentada em silêncio na maior e mais antiga biblioteca de São Paulo quando me lembro da pergunta que minha filha fez esta semana:
“O que você quer fazer no dia das mães?”, “o que quer de presente?”.
“Nada”, eu respondi, tendo algo em mente.
Quero adubar minha terra, cuidar dos meus ramos – tantos ramos…
Quero limpar e acariciar minhas folhas, me demorar em mim.
A maternidade impõe prioridades – primeiro o outro: cuida, alimenta, educa, serve. Repete tudo no dia seguinte. Não reclamo. Ser mãe me trouxe novas cores, me fez crescer de um jeito que eu nem sabia ser possível. Mas ultimamente tenho tido vontade de cuidar de mim, a árvore-mãe. Se eu não me nutrir, não haverá sombra nem fruto para ninguém.
Então hoje, depois de tomar café com uma amiga, decidi passar tempo entre livros. Dentre dezenas de estantes e milhares de possibilidades, escolhi ler poesia.
Poesias são como as parábolas contadas por Jesus. Nem sempre se revelam de imediato. É preciso estar atento e verdadeiramente interessado.
“Quando ouvirem o que digo, não entenderão. […] Pois o coração deste povo está endurecido; […] seus olhos não veem, e seus ouvidos não ouvem, e seu coração não entende, e não se voltam para mim nem permitem que eu os cure.”
Palavras de Jesus em Mateus 13.14-15
O peso da rotina, as preocupações dessa vida, deixam nosso coração frio e endurecido. A poesia faz o contrário, mas pede tempo, pausas, silêncio.
E é esse o presente que eu quero me dar – não só no dia das mães, mas sempre que possível.
Não quero atravessar a semana atropelada pelo relógio.
Quero desacelerar.
Quero ler poesia até cansar.
Se tenho pressa, leio alguns versos e não entendo. Alguns poemas são como bombons que precisam ser desembrulhados e degustados vagarosamente.
A poesia é um convite – diante dela preciso decidir se vou parar ou seguir. Reler ou pular para a próxima. Fechar ou abrir-me, permitindo-me enxergar pelas lentes do poeta.
“Felizes, porém, são seus olhos, pois eles veem; e seus ouvidos, pois eles ouvem.”
Mateus 13.16
A poesia – e a Palavra – são sementes, e precisam de um solo fértil para produzir frutos. Hoje, Adelia, Leminski, Ana Claudia e tantos outros adubaram meu coração.
Um abraço,







É verdade, minha amiga, a árvore-mãe precisa de cuidado. E poesia enche a alma e o coração. Que lindeza a que vc colocou para iniciar seu texto. A poesia, e a literatura em geral, faz a gente ver beleza onde aparentemente há o trivial, se reconhecer nas dores, não se sentir só, escapar do mundo concreto e árduo... Que a gente saiba ter mais momentos como este que você reservou pra você na biblioteca. Um beijo grande!