Ainda em tempo
Recentemente fui chamada para fotografar um projeto social em Taboão da Serra, SP. Meninos e meninas de diferentes idades treinam futebol no campo do bairro e recebem também um lanche e uma palavra bíblica. Passei o dia fotografando os treinos e as atividades, ouvindo a conversa das crianças, seus anseios e curiosidades.
Uns vão pelo esporte, outros pela comida, mas todos recebem a semente do Evangelho.
Há cerca de 4 anos esse projeto é apoiado pela Sports Outreach, uma organização internacional que escolheu o esporte para restaurar a esperança e transformar vidas. Mas o que eu descobri naquele dia foi que esses treinos de futebol começaram, há quase 30 anos, com um morador do bairro.
Esse senhor, que hoje tem 80 anos, nos recebeu em sua casa. Ouvimos suas histórias e partilhamos da sua alegria ao ver a continuidade de um projeto que começou há tantos anos. Uma das crianças que ele treinou é hoje um dos técnicos. A semente deu frutos.
Ao final da visita, o grupo, composto por brasileiros e americanos, orou por ele. Sua saúde esteve seriamente abalada nos últimos meses. O que parecia ser o fim de uma vida revelou-se apenas como uma tempestade passageira.
As palavras da pessoa que orou por ele ecoaram em meu coração:
“Você está aqui porque Deus ainda não terminou o que começou a fazer através da sua vida.”
80 anos… será que ainda há tempo e disposição para fazer algo mais? Não são os jovens os mais fortes, capazes e disponíveis para fazer grandes coisas?
Lembrei-me de Moisés.
Ele nasceu num tempo em que havia uma sentença de morte para meninos hebreus. Sua vida foi poupada e ele foi criado pela filha do Faraó. Passou 40 anos entre os egípcios, sem ser um deles. Ele deve ter crescido com um senso de propósito; afinal, se Deus o livrou da morte de um jeito tão inusitado, certamente sua vida seria usada para algo especial.
Aos 40 anos ele visitou seu povo e viu como eles eram maltratados. Decidiu fazer justiça com as próprias mãos, matando um egípcio que espancara um hebreu. Não deu muito certo. O Faraó descobriu e mandou que Moisés fosse preso e executado. Os hebreus também descobriram e questionaram sua autoridade: “Quem você pensa que é? Viveu a vida toda entre os egípcios e agora quer ser nosso chefe e juiz?” (Êxodo 2:14)
Deslocado e condenado, ele fugiu para o deserto, onde morou por mais 40 anos. Casou-se e teve filhos. Seguiu a vida como pôde. Aos 80 anos ele não havia feito nada pelo seu povo.
Mas tudo o que ele vivera até ali foi, na verdade, uma grande preparação para o que viria a seguir.
“No Egito, Moisés aprendeu sabedoria e liderança. Em Midiã, Deus substituiu a autossuficiência pela humildade, a impulsividade pela paciência e a confiança na força humana pela consciência de que a competência vem somente de Deus.” — Jodie Berndt
Foi aos 80 anos que Deus falou com Moisés na sarça ardente e o impeliu a fazer a grande obra de sua vida. Ele voltou ao Egito, libertou seu povo da escravidão e liderou sua jornada pelo deserto.
Morreu aos 120 anos, sem entrar na Terra Prometida. Muitos podem achar que seu grande projeto não foi bem-sucedido. Por um tempo eu achei injusto Deus não ter permitido que Moisés concluísse a missão, depois de tantas coisas que viveu nos anos de peregrinação no deserto. Mas hoje eu entendo que nosso desejo deve estar além daquilo que nossos olhos veem.
“Pensem nas coisas do alto, e não nas coisas da terra… agora sua verdadeira vida está escondida com Cristo em Deus.” Colossenses 3.2-3
Realizar conquistas aqui na terra é bom demais, mas é ainda melhor quando seu impacto é eterno.
A busca pela Terra Prometida não era o fim — era o caminho que Deus escolheu para se fazer conhecido a Moisés.
Desejo que cada dia da minha vida, seja aos 8 ou aos 80 anos, me leve para mais perto de Deus.
Um abraço,





Que texto maravilhoso!!