No ritmo da cegueira

Eu estava na plateia do teatro aguardando o início do espetáculo e acompanhando os anúncios na tela. Todos tinham tradução simultânea em Libras e também audiodescrição para pessoas com deficiência visual. A lei brasileira não obriga, mas incentiva essa prática de acessibilidade e inclusão. Excelente!
O problema foi quando começou a passar uma propaganda do próprio governo, mostrando a diversidade cultural que existe no Brasil. Dezenas de imagens, do Norte ao Sul do país, pipocavam na tela em uma edição de cortes frenética, capaz de deixar zonzo qualquer telespectador.
Nesse momento, a audiodescrição não deu conta de narrar tudo: fez um resumão geral das imagens e seguiu para o próximo anúncio.
Que ritmo é esse em que a gente aceitou viver?
Quando visitei um parque de diversões em Orlando, saí de um simulador com náuseas. O carrinho pouco se mexia, mas a tela… era uma grande sequência de luzes, imagens, movimentos bruscos e efeitos sonoros enlouquecedores. Credo!
Se você gosta de desenho animado como eu, reparou na mudança que aconteceu ao longo dos anos. O primeiro longa-metragem de animação da Disney foi Branca de Neve e os Sete Anões, lançado em 1937. Foi também o primeiro longa de animação colorido produzido nos Estados Unidos.
Repare como as cores são suaves e como a animação tem um ritmo calmo, bem diferente de Super Mario Bros. - O Filme, lançado recentemente. As cores extremamente vibrantes e o ritmo acelerado das imagens me fizeram querer fechar os olhos para descansar de tanto estímulo visual.
Meus filhos não reclamaram; eles já nasceram em um mundo acelerado e se acostumaram a isso. Para eles, esse é o padrão — muito provavelmente não teriam paciência para assistir a Branca de Neve.
Não sou contra mudanças; aliás, é interessante pensar que a minha geração talvez seja uma das que mais presenciou e se adaptou às evoluções tecnológicas. O que me incomoda é o ritmo — dos filmes, dos vídeos e dos áudios que, sem perceber, aceleramos para “ganhar tempo”.
Ganhamos segundos e perdemos tanto!
O ritmo em que vivemos hoje é muito contrário ao ritmo do próprio Criador.
Deus não tem pressa. Ele gosta de processos. Ele criou estações. Ele não apressa a semente para que dê fruto.
O apóstolo João disse que Deus é amor, e Paulo registrou:
“O amor (Deus) é paciente… tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
(1 Coríntios 13:4,7)
Nós não somos pacientes: não aguentamos sofrer, nem esperar. Não suportamos um vídeo, um áudio ou uma música com mais de três minutos!
Já percebi que o ambiente em que estou influencia meu ritmo interno. Quanto mais perto da natureza, mais desacelerada eu fico. É como se eu me alinhasse um pouco mais ao ritmo de Deus. E, quando isso acontece, sou capaz de perceber os detalhes, a profundidade, a importância de cada momento, e não só passar por eles como um borrão no frame de um filme.
Esse ritmo de viver a vida está nos deixando cegos.
Parafraseando o mendigo cego Bartimeu para a nossa realidade, eu diria:
“Jesus, tenha misericórdia de mim… [Diminui o meu ritmo] Mestre, quero enxergar!”
(Marcos 10:47,51)
Um abraço,







Sem querer ser resistente a mudanças , claro que as novidades são constantes e importantes, embora saibamos que é caminho sem volta, penso que o excesso, seja de cores, ou de agitação em qualquer forma, impacta as pessoas sobretudo as crianças, percebo muita impaciência e ansiedade! Ah a natureza é um balsamo; onde sentimos com tranquilidade a presença de Deus.