Repare, brinque, viva!
Há alguns meses levo meus filhos para a escola a pé. Um privilégio em se tratando de uma grande cidade, como São Paulo. São 3 quarteirões, cerca de 5 minutos, mas esse tempo caminhando com eles, tem marcado profundamente meu coração.
Ao sair do prédio, meus filhos gritam: “Não pode pisar na linha, nem na cor amarela!”, e assim damos os próximos passos desviando das rachaduras na calçada e dos pisos táteis amarelos que cruzam nosso caminho. Eles me observam atentamente pra verem se vou participar da brincadeira e num minuto de desatenção minha, me punem: “Mamãe pisou! Perdeu um ponto!”
Essa brincadeira durou semanas, até enjoarem e inventarmos outra: dessa vez eu os desafiei a encontrarem objetos de determinada cor. E não é que uma cidade cinza como São Paulo, está cheia de vida e de cor!? Há vermelho nos faróis dos carros, na placa de Pare, na floreira do vizinho, na placa de Aluga-se da imobiliária, no folheto que deixaram no chão…
Uma brincadeira simples, que abre meus olhos para perceber o que está em volta e me deixar (ainda que por poucos minutos) presente apenas no momento. Sem ansiedade, sem se preocupar com o depois, tal como as crianças.
Numa das vezes em que os deixei na escola e caminhei de volta para casa, olhei para o alto, para uma árvore com galhos cegos e ouvi o vento sussurrar no meu ouvido dizendo:
“Repare nas estações”.
Ainda que as estações do ano aqui não sejam tão distintas, há ciclos na natureza, mesmo num lugar de clima maluco como São Paulo.
Eu e meus meninos admiramos um ipê branco, em frente à escola. Por alguns dias a árvore virou a atração da rua. Toda florida, parecia uma noiva, sendo cortejada por abelhas. Depois de uma chuva de vento, ela perdeu praticamente todas as flores, e um tempo depois, se encheu de folhagens verdes - está frondosa novamente, mesmo que de um jeito diferente.
Numa das esquinas que passamos todos os dias, há dois pés de manacá-da-serra, uma árvore baixa que dá uma flor lilás e branca. Uma delas estava cheia de brotos verdes, prontos para explodirem em beleza. Avisei meus meninos: "Reparem nos brotos… logo logo essa árvore vai estar toda florida. E vejam essa aqui do lado, é da mesma espécie mas quase não tem broto nenhum. Vamos dar nomes para elas? Florisbela e Magricela.” Eles riram e concordaram com os nomes.
Perto dos manacás há outra árvore, a apelidamos de Gigantona. Desde que nos mudamos para cá, há alguns meses, ela está do mesmo jeito. Galhos secos, como se estivesse no fim da vida. Todos os dias eu olhava pra ela e não via nenhum sinal de esperança. Ela parecia morta, apesar de estar de pé.
Repare nas estações…
A vida está em constante movimento.
O fim de um ciclo é sempre um novo começo.
Essa semana a Gigantona mudou. Timidamente despontaram algumas folhas nas suas extremidades. Um sinal bem pequeno de vida diante de todo o seu tamanho. Mas é um sinal! Novamente o vento me dizendo: Repare nas estações. Viva as estações. Pode ser que por fora o cenário não seja o mais belo de todos, mas por dentro, a vida continua, as raízes se aprofundam se preparando para o próximo ciclo. E eu nem estou falando de árvores.
Daqui a um tempo as mãozinhas que agarram as minhas durante todo o trajeto até a escola, vão crescer, amadurecer e mudar de estação. Eles não vão mais precisar de ajuda para atravessar a rua. As rachaduras na calçada serão apenas rachaduras. As cores que identificamos, talvez passem despercebidas. A cabeça e os olhos deles estarão em outro lugar. Mas eu vou ter este texto para lembrar. Esta é a fotografia da minha estação hoje. E espero, de coração, estar vivendo esse tempo com presença e sabedoria.
“Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar. Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.” (Eclesiastes 3:2-8)
Um abraço,








Que texto maravilhoso 💚
Me identifiquei muito, pois aqui em Ribeirão o clima é extremamente seco no inverno, e este ano foi ainda pior por causa das queimadas na região.
A cidade inteira estava marrom, as árvores todas sem folhas, parecia que tudo estava morto e que o mundo iria acabar. Seco.
Fomo passar 10 dias em Floripa e quando voltamos a cidade parecia outra: tudo verde e cheio de folhas, os passarinhos voltaram, a vida estava aqui. Fiquei extasiada com a capacidade da natureza se renovar, de aguentar períodos de seca e renascer, pensei que também somos esta natureza, fazemos parte de tudo isso. Também possuímos dentro de nós, esta força que vem de Deus, para nos refazermos e renascermos diante das dificuldades da vida. O problema é que as vezes parece que nos esquecemos que fazemos parte disto, estamos cada vez mais, nos distanciando da nossa essência. O que faz se tornar ainda mais importante esta reconexão, estes momentos simples e lindos que você teve. A maior beleza está nos menores momentos! 🙏🏼🙌🏼🌻
👏👏👏 aproveite muito esse tempo, passa tão rapidinho