Saboreando conversas
O que se constrói ao redor da mesa
— Como se chama aquela sua amiga que tem nome difícil? Aionã?
— Ainoã.
— Parece nome indígena.
— É um nome bíblico.
— Eu adoro o pão da Aionã.
— Ai-no-ã!
— O pão que ela faz é o melhor do mundo! Quero voltar lá pra comer o pão dela de novo, mãe!
Já faz mais de um ano que visitamos essa família de amigos em Vila Velha, no Espírito Santo. Nos conhecemos em São Paulo, há mais de 20 anos. Ainoã e Tulio eram um jovem casal mineiro que abraçou os jovens da comunidade como se fossem seus próprios filhos. Passávamos as manhãs de domingo juntos mas a amizade cresceu mesmo em outros momentos.
Lembro-me de uma vez, quando sentados à mesa, Túlio deu uma aula de como se fabricava salsicha e Nuggets – bem no momento em que comíamos cachorro quente. Ele trabalhava numa empresa do ramo e podia falar com propriedade.
Com a mesma propriedade falava também de Isaías, o grande profeta. Ele nos instigava a ler a Bíblia e nos ajudava a transpor os obstáculos para entender o que líamos.
Foi sentada à mesa na casa deles que experimentei alface pela primeira vez aos 20 poucos anos. Um marco histórico para mim e para o nosso grupo de jovens.
Mineiros têm um dom especial para conduzir uma boa conversa temperada de comida, e quando os visitamos no ano passado, não foi diferente.
Somos dois casais maduros que agora somam seis filhos! A vida mudou muito desde o episódio do alface, mas a hospitalidade da Ainoã continua a mesma.
Durante os dias em que estivemos lá, ela fez pão caseiro e pão de queijo algumas vezes - e meu filho ganhou um novo Card em sua memória afetiva.
Estou lembrando disso enquanto preparo uma torta de liquidificador para levar ao encontro do nosso pequeno grupo. Durante alguns anos recebemos em casa alguns amigos quinzenalmente para partilhar a mesa e a vida. Numa cidade como São Paulo, se comprometer a estar junto numa sexta-feira à noite, depois de trânsito e trabalho, é algo realmente valioso. Eu fazia a torta de liquidificador porque era rápida, mas sem querer, ela acabou entrando no hall de memórias culinárias afetivas dos nossos amigos.
Quando provam a torta outra vez, sentem o gosto das conversas, das confissões e das risadas. Experimentam na memória a alegria de se reunir em nome de Jesus e ganhar muito mais do que conhecimento bíblico.
Não é a receita, mas o gesto que faz uma comida especial. Não é comer, é sentar à mesa e encontrar espaço para falar e ser ouvido, para chorar e ser consolado, e para rir acompanhado. É ao redor da mesa que uma amizade ganha corpo, quiçá para a eternidade.
“Quando estavam à mesa, ele tomou o pão e o abençoou. Depois, partiu-o e lhes deu. Então os olhos deles foram abertos e o reconheceram.” Lucas 24:30-31
Um abraço,
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Uma delicia de texto! Fiquei curiosa pra conhecer a receita da linda torta de liquidificador 😊